Das convicções
Mais uma vez falando de pulsão de vida (não será a última)
Tenho convicção de que tudo dói.
A dor é um pressuposto da efemeridade. Nada dura para sempre, infelizmente. E, se tudo é efêmero, tudo vai doer. Se não é doloroso pelo fim, é doloroso pelo processo.
E os processos são também efêmeros por si só - têm começo, meio e, é claro, fim. Então, toda dor é também passageira. Mesmo aquelas bem longas.
Tenho certeza.
*****
Dia desses, um amigo recente - muito querido, mas ainda recente (afinal, ser pós-jovem é ter amizades que já duram mais de 20 anos, né?) - disse que nada me abala.
Eu, que me sinto constantemente à beira do colapso meio que desde sempre, ri alto.
Entendi o contexto, tinha a ver com eu sempre dar um jeito nas situações. E acho que ele tem razão, e que todos os meus amigos - recentes ou não - concordam com a ideia de que eu vou dar um jeito.
Mas “inabalável” tem em si uma solidez na qual não me reconheço. Entendi, ri alto, mas sei não.
*****
Tenho “fé” tatuado em um antebraço. Em hebraico. A explicação é longa, quase nunca tenho pique para falar.
No outro, tem “paz”. Em russo. A explicação é menos longa, mas igualmente preguiçosa para mim.
Quando me perguntam o que querem dizer minhas tatuagens, aponto para uma e digo “fé”, daí para outra e “paz”, daí aponto para o cóccix e digo “harmonia”. Tem quem acredite, tem quem entenda o senso de humor.
*****
Sofro de paralisia de escolha de uma maneira muito particular. Do tipo de já ter ficado uma hora e meia rolando um aplicativo de pedidos sem conseguir escolher o que jantar, depois desistir e fazer um omelete.
A questão não é não saber o que quero, mas o peso das muitas variáveis presentes em cada decisão. Esse aqui eu gosto mais, mas aquele eu gosto também e está mais barato, mas tem aquele outro que eu nunca pedi e tenho curiosidade, só que aquele vai chegar mais rápido e está ficando tarde, mas não é bom comer algo pesado assim à noite - daí por diante.
Tem um outro amigo - nada recente, mas com quem não falo há um ano e meio e nem sei direito o motivo - que já comentou mais de uma vez que eu tenho o dom de fazer o melhor pedido do cardápio. Saí(a)mos para jantar, ele ia no especial da casa, à moda do chef ou qualquer outro nome grandão ali na primeira linha. Eu aponto, ou apontava, para algo quase escondido lá no meio do menu e, sem exceções, meu prato se mostrava a melhor escolha.
Ele só nunca viu a ansiedade tão bem mascarada de quem está suando para não fazer o amigo esperar meia hora. Por isso também eu, muitas vezes, falo “quero esse também” quando alguém conta o que vai pedir. Ou, o que admito que também acontece, digo “vou ficar só no café mesmo” porque estou sem energia mental para fazer uma escolha.
Aconteceu isso dia desses, quando encontrei minha amiga Natália Sousa (Pós-Jovem #067) em uma padaria. Olhei a vitrine, medi meu ânimo e fiquei só no café. Satisfeito, de certa forma, mas nem tanto.
Nesse mesmo papo, falei para ela que tenho três grandes convicções:
Que vai doer;
Que vai passar;
Que consigo ser feliz nesse processo.
*****
Essas semanas têm sido especiais, porque estou trabalhando com esta próxima edição do \ENTRE\ mostra de artes e cultura def 2026. É a segunda vez que trabalho para o evento, agora com matérias para o site.
Entrevistei cinco artistas em um intervalo de poucos dias - a primeira matéria, com Brisa Marques, já foi publicada (vale muito ler, ela é o máximo). A única pergunta que fiz em comum para todos eles foi sobre a importância de artistas com deficiência conviverem com outras pessoas que também criam dentro da cultura def. Todos concordam sobre essa relevância.
É difícil expressar o quanto eu fico feliz com essas conversas. É um trabalho tão árduo (escrever é horrível, né?), mas que mantém meu universo em expansão. Gosto muito de me sentir tão pequeno, com tanto para aprender, e cada pessoa sempre traz tanto. Foi o caso dessas entrevistas, é o caso de toda semana com o Pós-Jovem.
Quanto mais eu faço, melhor entendo meus motivos para não desistir - e mais eu quero fazer.
*****
Tenho convicção da felicidade.
Porque sei rir alto com sinceridade no meio de um desabafo, por exemplo. Ser pós-jovem é saber que a simultaneidade é própria do sentir. Posso ser menos feliz em um momento ou outro. Por outro lado, ser feliz não é sinônimo de não sentir todo o resto.
Também porque estou acompanhado de lembranças que colorem minha vida - da viagem e da festa, mas também de um cotidiano bem vivido, das conversas que me nutrem e de abraços que falam por si só.
Tem a ver com não estar sozinho. Ou melhor, tem a ver com nunca estar sozinho, e nunca ter estado. Sou perdidamente apaixonado pelas pessoas que fazem parte da minha vida. Que sorte a minha ter com quem sorrir.
Os motivos se acumulam, mas nem sei também se a felicidade reside em um plano tão racional assim. Já senti tanto e sinto muito, já chorei e choro, urrei de ódio e me calei com a amargura. Mas ela insiste em não me abandonar.
Tenho certeza.
No podcast…
Fabi Fróes é mãe, trabalha com relações públicas no YouTube/Google, escreve no YouPix e é também autora do livro Mediocridade - Crônicas de uma Mãe Millennial em Busca do Ordinário. No podcast, falamos sobre megalomania e burnout na nossa geração, a alegria de estar em contato com pessoas comuns e muito mais. Sai nesta terça, dia 05, no comecinho da tarde.
Bora manter contato!
A próxima edição da newsletter vem em 18 de maio. Enquanto isso, venha pro papo no podcast@posjovem.com.br e siga o Pós-Jovem no Instagram e no Bluesky, além do canal Acesso aos Bastidores do Whatsapp. Não sabe por onde começar a escutar o podcast? Que tal a playlist de “Episódios Essenciais”?




Gosto das suas convicções. Sou convicta de sempre vou admirar seu conteúdo. Mesmo que eu só apareça aqui uma vez por década, sempre saio com algo pra refletir a respeito. Obrigada por tudo e por tanto.