Ir Para Poder Voltar
Toda distração pode ser esclarecedora
Lembra em Harry Potter quando Dumbledore usa uma “penseira”? Era tipo uma bacia em que ele depositava seus pensamentos e conseguia, ao olhar para ela, vê-los melhor. Faz uns 20 anos que li essa cena, mas nunca me esqueci da penseira por motivos de: Inveja. Já pensou ter uma dessas em casa?
Aqui no mundo real, nós (os trouxas) temos também nosso jeitinho de colocar a cabeça em alguma outra coisa e, com isso, tentar clarear os pensamentos. Pois é para isso também (dentre inúmeros outros propósitos) que servem tanto a arte, quanto as narrativas para entretenimento - ficcionais ou não.
Comecei esse texto citando um livro, mas poderia ser uma peça de teatro, novela, filme, quadrinho ou série. A questão é que, muito cedo na vida, aprendemos o poder do faz de conta e nunca mais largamos dele. Aceitamos a normalidade de um ator interpretar um personagem, ou da mão do artista criar algo que não existe, e, por algum tempo, depositamos ali nossa atenção, afeto e até “crença” naquele universo.
Nós vamos até a arte e temos nossa experiência com ela. Depois, voltamos.
E é aí que a penseira faz sentido. Porque sabemos muito bem que nunca voltamos os mesmos - aprendemos algo, compreendemos um ponto de vista, enfim - e o retorno implica também na organização das ideias. Quem eu sou agora tem uma melhor noção de quem eu era agora há pouco, antes da arte.
Às vezes, esse processo é bem mais simples, fruto de uma saudável distração. Estou aqui mergulhado nos problemas, desejos e limitações da minha cabeça e me afasto por uns instantes de tudo isso que sou. Quando volto para mim, estou com o fôlego renovado para ser eu mesmo. Entende?
O riso, para mim, tem esse papel. Tem a ver com a realidade do outro que eu posso conhecer em um stand up, por exemplo, ou faz de conta dos atores em uma boa comédia. Mas também com o meme e, principalmente, com o chorar de rir com os amigos. É distração, que bom. É arte também, entendo.
E música, né? Enquanto palavra cantada, poesia que comunica tanto em um discurso que a fala apoiada só na racionalidade não dá conta. Mas também enquanto som - melodia, ritmo e harmonia, com tudo o que isso causa dentro de mim. Música instrumental é arte abstrata e coopera com a penseira no dia a dia, mesmo se estou no transporte público, na academia ou no meio da faxina.
Importante demais termos arte que organiza, que movimenta, que denuncia. Obras que nos ajudam a enxergar melhor, a compreender o que está acontecendo e, talvez, até oferecer alternativas para as questões em que empacamos. Vale para a sociedade, vale para a pessoa.
Por isso que eu insisto na imersão do filme na tela, no show que faz o corpo dançar sem perceber, na leitura que não percebe o virar das páginas. É preciso se distrair. E vale para o crochê, para a cerâmica, para o desenho no canto do caderno, para o arranjo de flores que faz o mundo lá fora caber um pouquinho aqui dentro - faz de conta que isso é possível.
Não importa o quão turva a mente está, ou o tamanho da penseira que seria necessária para dar conta de tanta ideia embaraçada: Nada é mais centralizador do que a distração.
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Este texto inaugura as atividades da newsletter Pós-Jovem em 2026. Foi preciso parar por algumas semanas - também com o podcast - para voltar com nova perspectiva.
O que encontrei no meio tempo foi um grande conflito com propósito e significado. Ou melhor, por esses valores serem tão caros para mim, a ponto de construírem o Pós-Jovem, me percebo em um duelo contra a (falta de) percepção deles em um mundo tão distraído - no mal sentido.
Em uma época em que tudo pede minha atenção, tudo é urgente e tudo se autoproclama relevante, quais mensagens eu quero pôr no mundo? Como eu te conto que, se estou lançando um texto ou podcast, não é para somar ao ruído, mas é porque tem propósito e significado?
Ainda não sei. Mas fui, me distraí - no bom sentido - e voltei.
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Minha amiga Mari me sugeriu que falasse de arte em tempos difíceis. Ela é dessas pessoas muito engajadas na construção de um mundo mais legal. Eu olho para suas filhas e penso que também quero construir um mundo mais legal para elas. Fica aqui a esperança de mais um tijolinho nessa construçãozona.
No podcast
Esse assunto continua também no episódio que estreia a oitava temporada do Pós-Jovem. Nele, Cícero vem para relembrar e celebrar os 15 anos de seu primeiro disco, Canções de Apartamento (2011), que ganha turnê especial nesses próximo meses. Eu estava lá como fã e como repórter, e foi um prazer imenso conversar para além da nostalgia, mas tratar justamente de propósito e significado na arte e naquilo que colocamos no mundo. Sai na terça, 27 de janeiro, no comecinho da tarde.
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Texto lindo ❤️