Ser Homem: Que Poder É Esse?
Sobre ver "Machos Alfa", "DTF St. Louis" e "Half Man" na sequência
“¿Que es ser hombre?” - a primeira frase do primeiro episódio de Machos Alfa ecoa quase como um refrão ao longo de toda a série, e virou piada interna com um ou outro amigo meu. Não me preocupei em tentar responder a pergunta em nenhum momento enquanto via suas cinco temporadas, me bastou ver aqueles pós-jovens, na faixa dos 45/50, terem que se virar para entender que os tempos mudaram e, com eles, a ideia de masculinidade também se transformou. Ou deveria ter se transformado.
Mas a questão me retornou algumas vezes enquanto via outras duas (grandes) séries deste semestre (todas saíram em um intervalo de cerca de dois meses): DTF St. Louis e, principalmente, Pela Metade (Half Man). Naquele nosso compromisso de sempre, o de nunca dar spoilers, vou montar aqui o raciocínio falando um pouquinho de cada uma delas. e já adianto: Vale ver as três - por motivos bem diferentes.
Machos Alfa (Netflix) começou em 2022, mostrando os conflitos de quatro amigos em Madri que se perceberam ficando para trás em um mundo que mudou muito. Eles vão parar em um curso de desconstrução de masculinidade e, a partir disso, observam todas as suas relações mudarem - seja com suas esposas ou namoradas, colegas de trabalho e com os filhos. É engraçada, com um ou outro momento mais sensível aqui e ali, vale mais pelas risadas mesmo, principalmente para quem curte um humor mais constrangedor (é o meu caso). A quinta e última temporada estreou em abril, concluindo a história não só de suas jornadas individuais, mas da amizade dos quatro.
“Amizade” é também um dos temas centrais de DTF St. Louis (HBO), com uma linha do tempo um tanto complexa, que vai e vem entre acontecimentos de diferentes épocas (em um trabalho de roteiro e montagem que me fizeram aplaudir de pé no meio da sala d casa). Tudo começa com a aproximação de dois colegas de trabalho, no interior dos EUA, e como suas vidas se fundem a partir dessa intimidade - lembra um pouco Nelson Rodrigues e o que acontece da porta para dentro das casas que vemos só por fora. O assunto principal acaba sendo a solidão masculina, mas há muito o que se conversar nas linhas e nas entrelinhas da série, de sexualidade a questões financeiras, e o que fica na mente é aquela ideia de “caramba, como as pessoas são complexas”.
Esse pensamento é elevado a uma baita potência em Half Man (também da HBO), de longe a experiência mais visceral e incômoda (para não dizer perturbadora) dessas três. Seus seis episódios transitam entre duas linhas do tempo que mostram adolescência e vida adulta de dois garotos escoceses criados juntos - um muito agressivo e o outro completamente autodestrutivo - e o potencial devastador desse vínculo. Fala de homofobia, de repressão e de relações de poder, tudo de uma forma bastante violenta.
Sabemos que, na produção cultural, nada é por acaso e nenhum fato é isolado. Ou seja, não é à toa que essas três séries vieram ao mundo ao mesmo tempo. Tem a ver com as conversas que estamos tendo enquanto sociedade, e com aquelas que precisamos ter urgentemente.
Daí repetir a pergunta: ¿Que es ser hombre?
Considerando a argumentação nas três produções, a resposta é que ser homem tem a ver com força física, sexualidade e dinheiro. Ou melhor, como esses três fatores estão em jogo nessas relações de poder que tanto caracterizam o masculino.
Porque ser homem é entender o corpo como um instrumento de controle. É querer ser o mais forte, ou o maior, para poder intimidar ou mesmo concretizar alguma violência. Daí a admiração por figuras que exibam força, e o desconforto do homem que não se percebe admirável.
Duas das séries trazem também personagens que expressam alguma curiosidade, às vezes de forma bastante insistente (ou problemática) com o pênis do outro. Nessa ideia de que a masculinidade poderia ser identificada, ou descartada, visivelmente no corpo.
Quanto à sexualidade, desejo e tudo o mais, o pênis nem está tão em questão assim nessas histórias. O que elas mais mostram é o desejo inibido, às vezes reprimido, e não saber lidar com a liberdade almejada. Mas, é principalmente questão de dominação, de estar no controle do que se deseja e, com isso, no controle também do outro corpo com que se divide a cama.
E o dinheiro é também chave nas relações de poder. Já de longe, ele simboliza status, mostra quem é que manda. Pior ainda quando a questão financeira perpassa também o vínculo entre duas pessoas, aumentando ainda mais o poder que uma exerce sobre a outra.
Mas o poder intermediar as relações, ou ser uma espécie de modus vivendi do masculino, tem como consequência a alienação das relações - a dominação toma o lugar da parceria, o controle inibe a autenticidade e o medo, qualquer tipo de medo, fragiliza os laços saudáveis.
Nada disso é novo para quem acompanha discussões sobre masculinidade que estamos promovendo há tanto tempo (inclusive no Pós-Jovem). Mas é curioso demais notar como as três séries, feitas em países diferentes, se prestaram a fomentar esse debate praticamente ao mesmo tempo.
Eu, que também sou homem, me vejo - mesmo que em um grau pequeno - nessas histórias. E tenho medo desse poder que pode definir a maneira como interajo com o mundo. Medo também do potencial de destruição que essa condição favorece. E da solidão que tudo isso causa.
Ser pós-jovem é também entender que sempre há tempo para repensar como estou (ou estamos) vivendo, mesmo que com questões tão enraizadas na cultura e na sociedade. O “poder” mais interessante nessa história é o de transformação - que, sabemos, começa com a comprensão. E ela vem da tentativa de resposta: ¿Que es ser hombre?
No podcast…
Esse assunto continuará no podcast, no episódio do dia 09 de junho. Nele, um cara muito querido, que passou pelo Pós-Jovem em 2023, volta para falar da relação entre masculinidade, força e medo.
Uma semana antes, em 02 de junho, o queridíssimo Téo Costela vem ao podcast para um papo solto sobre a vida. Ele é designer, artista visual e youtuber, e é também o criador do Suaaave, a rede social mais bacana da atualidade. Conversa imperdível, você vai adorar.
Bora manter contato!
A próxima edição da newsletter vem em 15 de junho. Enquanto isso, venha pro papo no podcast@posjovem.com.br e siga o Pós-Jovem no Instagram e no Bluesky, além do canal Acesso aos Bastidores do Whatsapp. Não sabe por onde começar a escutar o podcast? Que tal a playlist de “Episódios Essenciais”?




Demorei pra ler esse texto, mas valeu muito a pena! Curiosa pra ver as séries
Vou aguardar o episódio, mesmo sendo talvez a pessoa com menos paciência pro tema (o feminismo me fez cansada e raivosa,rs)